10/06/09

o dia em que “sex and the city” fudeu com a minha vida!

Pouca gente sabe a diferença entre sexismo e feminismo. O primeiro é a prática indolente do feminismo, são os (ou melhor, as) separatistas xiitas: homem bom é homem morto. A segunda é uma prática benevolente. Eu não pretendo tomar o lugar de nenhum homem, muito menos subjuga-lo. Entendo de bom grado que homens e mulheres são diferentes. E essas diferenças vão bem além de pintos rijos e xoxotas cabeludas. O que nos distancia - seria essa a palavra? - dos homens está acolá do físico.

Hoje em dia uma mulher não pode ser mais feliz sem orgasmo? Isso é sexista! Nos homens, o orgasmo e a ejaculação vêm juntos, indissociáveis. Mas nós não somos preparadas biologicamente pra a ejaculação. Esse feminismo queima-sutiã nos pressiona: não tem orgasmo? Não é feliz. Mentira! Nem sempre teremos orgasmo, pois pra nós que somos muito mais sentimento que os homens, o orgasmo envolve outras coisas mais. Entretanto é lógico que me bate uma tristeza em saber que há mulheres que jamais gozaram em sua vida.

O que digo é que não precisamos “neurotizar” o orgasmo! Se você não teve, tudo bem. O coito pode ser muito prazeroso sem o orgasmo. Não sei quantas vezes já fiz sexo, mas sei que não foi em 100% das vezes
que tive um (ou dois, três, múltiplos) orgasmos. Às vezes é suficiente uma transa bacana, um cara legal e um pouco de carinho. O que não podemos é fazer das mulheres que não gozam, mas são felizes, mulheres loucas e tristes. Eu tenho orgasmo e sou feliz. Mas quando não tenho, ainda sim, sou FELIZ!

08/06/09

oin oin

Esse blog deveria se ocupar de assuntos sérios que tratam do bem (ou não de todos). Mas hoje deu vontade de mostrar uns objetos (fofos) roubados da Mari. Oin, eu quero!


Uma toalha, gente!




Esses puf's ficarão lindos na sala da casa que ainda terei!

Eu sou uma dona de casa enrustida!



Pra porta, gente! Meigo!

Adivinha? Sim, uma luminária!
Gozei!

Eu quero, já!

Oin, relógio!

Oin, copos " Ctrl Alt Del"!
Coisa fofa de geeks!

Útil!

Útil. As vezes!

Pouco útil. Muito linda!

02/06/09


25/04/08

carta ao meu pai (morto)

Lima Duarte, 25 de Abril de 2008.

Olá pai,

Estou em casa. Mas não pense que eu voltei, eu vim só para essa data tão especial: que além de ser o aniversário da minha mãe é o dia do aniversário da sua morte. Hoje em dia as pessoas são menos saudosistas aqui em casa, embora o Marcelo, depois de algumas cervejas a mais, externe a falta que você faz. Seu primogênito voltou a freqüentar nossa casa e já tem um filho lindo, que corre muito. Os netos que você conheceu, Léo e Luísa, estão com saúde e muito inteligentes. Não poderia ser o contrário.

Minha mãe arrumou um namorado que não dá muito valor nela. Porque ela é minha mãe e todo o valor do mundo ainda seria pouco. Ela emagreceu uns 30 quilos e está linda. Mas não dá sorte com homem, como você bem sabe. Acho que os homens têm de tomar um cuidado maior com senhoras viúvas ou separas que tenham filhos, porque além de mulheres elas são mães. Nós filhos não deixamos barato nada que lhe façam, ou que deixem de fazer. Vai saber. Já não perdoávamos quando era você, nosso pai, que deixava faltar algo a ela, ou a agredia verbalmente. Porque bater você nunca bateu, mas algumas palavras cortam mais que navalha na carne. Mas ela ainda lembra de você quando faz sopa ou churrasco, diz que você gostava muito. Acho até que ela sente falta de cortar seus poucos cabelos.

Tudo andou muito mudado, pai. Ninguém tirou suas coisas do lugar. Mas também ninguém toca em mais nada seu. Seus quadros agora são obras de arte para família, mas quando você os pintava todos diziam quem eram feios. (Não pra você, obviamente) Alguns dos nossos até levaram seus quadros, mas não sei se eles enfeitam a sala ou o quarto deles. Aquele da fazenda está na sala do Marcelo. Outros ficaram lá em casa, porque eu não deixei que se desfizessem deles. Minha mãe trocou a cama e os lençóis de vocês. E depois de algum tempo teve coragem pra tirar a aliança, mas comprou um anel caro pra colocar no lugar. Acho que era costume de ter algo naquele dedo.

Ainda lembro quando você me mandava te chamar de SENHOR, ordem que eu obedecia entre os dentes. Você me fez muito mal e quando resolveu me perguntar que livro eu lia - era o Macário, de Álvares de Azevedo – já era tarde demais: você estava em cima de uma cama, e eu dava de comer na sua boca. Eu nunca te disse o quanto te amava. Talvez por medo, orgulho ou porque você tirava as mãos sempre que eu as tentava tocar. Mas pai, me orgulho das noites de boemia que tivemos em casa; de cada vez que você sorriu quando eu falava alguma asneira, como quando eu disse que a novela só acabava no último capítulo; e de como você prezava nossa educação, fosse na mesa (em que sobrar alimentos era um crime) ou então ao lidar com outras pessoas. Sempre nos mandou pedir licença e dizer obrigado, embora você mesmo não tenha exercitado essas normas com o povo de casa.

Eu estou na faculdade, mesmo sabendo que aquilo acaba comigo e que não nasci pra isso. Porque pra escrever, ler e fazer filme eu não preciso me sentar em frente aos professores de Segunda a Sexta, às sete da manhã. Eu sou mais eu. Mas vou ter um diploma, que talvez seja enterrado na sua sepultura. Quem sabe. Tenho um namorado, contrariando todas as expectativas. E pior, ou melhor, você gostaria muito dele tanto quanto eu gosto. Eu tenho muitos planos com ele, mas esses não vão com a carta, porque esses eu conto em segredo pra você toda noite.

P.S.: Dê um beijo na vó Julia e Elvira, e outro no vô Geraldo. O vô Augusto está forte por aqui, no auge de seus 92 anos.

Beijão,
E até a próxima.

18/04/08

dig dig o que acontece: dignidade

Você pode ser feia, pobre e favelada. Ou rica, metida e residente da Quintas da Avenida (ou dos Infernos, vai saber). Mas tenha dignidade. Se, através do Word, você procura pelos sinônimos de dignidade ele te diz: compostura, decoro, decência, recato e excelência. Mas não diz nada sobre hipocrisia e falsa moral. Por isso não me entendam mal: eu gosto do que é digno, DO QUE É DIGNO, ENTENDAM BEM.

Eu gosto de sentimentos dignos, de atitudes dignas, de pessoas dignas, e sem hipocrisia, por favor. Porque pra mim o pó era do Cabrine; e o pai matou a própria filha no caso da Isabella. Isso é indigno. Não pelo que ocorreu, mas como ocorreu.

07/04/08

à quilo

nos teus dedos
vai o meu
cheiro
que levas
na minha cama
fica teu
cheiro
que deixas
na minha boca
fica
um desejo
que mordas
e no calendário
que o tempo
se mova.

- dele -

partes de mim

a tua presença
me faz falta
e quando,
aos domingos
só me resta
ver teu corpo
de costas
voltando à cela
só posso esperar
que venha
segunda
à passos
largos:

aquilo que me falta,
ainda sim,
faz parte de
mim!

- dele -

02/04/08

pé de meia

vamos juntando
sêmen por sêmen
e esculpindo
um filho
moldando
com as mãos a barriga
para abrigar
uma vida;
uma vida
inteira
com as nossas
metades!

(eu sonho acordada
para que dormindo
possa haver várias
realidades)

e quando uma bola
de pêlos na garganta
afora,
então o olho
uma lágrima degola;
nossos corpos
guilhotinam
os espaços
e nossos
pedaços...
e finalmente
podemos, então,
sermos um
só.
em dois.

- dele -

objetivando o subjetivo

Eu sonho com o dia em que quando o relógio disser que já são 11 da noite ele possa simplesmente virar pro canto e dormir, e não tenha que levantar, se vestir e ir...

31/03/08

Alberto Nicco diz:
O mundo é filosofia senhorita Sophia

ane(lise) diz:
Certo, senhor Knox.

Alberto Nicco diz:
rsrsrs... "O mundo de Lise"

Alberto Nicco diz:
Vamos fazer poesia?


Kiss me enganar,
Kiss me extraviar.
Quando eu te ligar é pra atender,
É para atentar...

Tô Exilado hoje.
Se me ligar.
Eu vou atender.
Eu vou ouvir só você,
Apenas voz,
em meu mundo atroz.
De tédio com T.
Tédio de Tesão
Tédio de amor,
sexo igual a emoção.
E o amor é convenção:
convence a ação.
Ação de mais.
Tesão satisfaz,
Meu querer maior...
Quero tudo, tesão no escuro...
amor e só;
Fazendo prazer com o Amor.

/em negrito é meu, normal é dele. e as palavras são nossas/

25/03/08

as(sim)

entre os teus lábios
: saliva-me
entre nós
entre pouco
entretanto

carrego
um amor dentro de meu olho
esquerdo
e um sonho
na barriga

- dele -

18/03/08

fa(cu)ldade

Eu achava que só eu matava aulas na faculdade. Começou a me bater um desespero de saber que só podia matar cinco aulas de Realidade Brasileira (e já tinha pelo menos umas três faltas, só nas minhas contas e só no início do semestre). Então eu resolvi ir à aula e me sentei no fundo. Saquei um Bukowski da bolsa e fui lendo pra matar o tempo – mesmo que o cara não seja muito bom nos romances – enquanto a professora não chegava. Entre uma página e outra descobri que os meus “colegas” de classe além de pagar (caro) por cada matéria não estão indo as aulas, e pior, nem a professora. Ou seja, me tranqüilizei: sem professora, sem chamada, sem falta.

Ela não apareceu. Saí da sala.

15/03/08

casual

(para ana e luís)

Ela o abrigava
e seu próprio
seio:
amamentando
o homem que ama.
(Ele regurgita o leite)

Ela alonga os cabelos
para trazê-lo a
salvo
do vento sem norte.
(Ele amputa-lhe as pernas)

Ela rascunha a
vida para
que ele passe-a a
limpo.
(Ele rasga os verbos)

Ela se agarra à
cama; ele dorme
tranquilamente,
com um
sonâmbulo.

all cool

bukowski
gozou no oceano
e o mundo
engravidou:
uma menina.

(com a saia
nos joelhos
e
a calcinha
no chão)

mar/08
anelise f.

tempo

a minha barriga
em festa
enquanto a pele hirsuta
excomunga um beijo

ele
cossa o saco e
fala de nossos
planos e
eu
adoro tê-lo
descansando dentro de mim

(viver de poesia ou
morrer de fome
a dúvida que nos
consome)

- dele -

amor institucional

cada poro
regurgita
um "eu te amo"
e o meu sexo
sente o teu
cheiro

o amor é
uma porta

amor da
manhã
entre as minhas
pernas
e o amor da tarde
multiplicado
pelos números
das horas
e o amor da noite
com o fim...
... até amanhã!

- dele -

(nó)s

ele deitado
eu poeta
ele prazer
eu gemido
ele tensão
eu libido
eu nua
ele vestido
(de mim)
ele metade
eu (ele) por inteiro
ele dormindo
eu recreio
eu sabor
ele cheiro
(de mim)
eu conotação
ele "que horas são?"
eu viagem
ele mundo inteiro
ele grito
eu ai
(de mim)

- dele -

07/03/08

Dois meses! Mas o tempo passa diferente pra nós. Nós pensamos em coisas de anos. Pra anos. Porque se temos que viver um dia de cada vez, vamos viver todos hoje! Se não dá pra pular, que eles venham agora. Porque o tempo passa diferente pra nós.

Você descobre que é AMOR quando até as falas dos filmes começa a fazer sentido, você quer comprar um livro do Bukowski de meia (porque sabe que futuramente ele vai estar na estante dos dois) e não se tem mais medo de parecer piegas dizendo


EU TE AMO.

01/03/08

descoberta

o vento açoitava as ruas:
era o galope de teus lábios
que vinham me beijar

explodindo
um beijo a cada verso
e desmascarando
um grito a cada sexo

então ali eu descobria
que orgasmo
é boiar
dentro do próprio
corpo

- dele -

...

quando eu vi
arregalei
o peito
e comi
teus sentimentos
e enquanto
digeria
eu fui lutando
com o tempo
para que o metabolismo
fosse rápido
e eu,
tão logo,
voltasse
com fome
de leão.

- dele -

28/02/08

todo carnaval tem seu fim

Chegou a hora de gravar o último episódio da nossa série. É aquele dia em que todo mundo usa uma maquiagem muito mais carregada, porque a cara de choro é notória. O Alexandre na frente de seu computador dizendo “é Anelise”. É o núcleo dele. O Tadeu com cara de “que merda”. É o núcleo dele. E eu batalhando uma casa nova. Meu núcleo. Cada um de nós vai fazer sua série ou vamos fazer pequenas participações em Lost e 24 Horas? Será que vamos sair da ilha ou vamos salvar o mundo de 458 mil terroristas e 759 mil bombas em um dia? Não sei. Mas está chegando o último dia da série República Jambalaia.

Duramos seis longas temporadas, mas o último episódio não terá reprise. Aturamos cara feia, falta de grana e o Luís. Nem essa peste paraense foi capaz de acabar com a harmonia doméstica que reinava naquele apartamento. (Pelo menos quando ele voltar o Hilton Hotel estará de portas abertas, rá).

Não vou esperar o pessoal da Federal tocar o interfone 08; não vamos beber vinho na sala sem mesa; o Alexandre não vai rir das minhas risadas; o Tadeu não passará com aquele pijaminha estiloso; nem vou parar na porta do Alexandre e dizer “pois é”.

Acabou! O texto e a república. Valeu, ô cambada!

26/02/08

e em tudo sinto o teu cheiro

ainda sem
pernas
eu saberia
rastejar dentro
do teu peito:
bastaria mergulhar
dentro de
mim

ainda que
nossos planos
se calassem no
fundo de nossas
bocas
bastaria a largura
de nossos braços
para regressá-los

os meus olhos
se calam
para quando
teus suspiros
falam
e meu coração pára
entre as batidas
para dizer que
há vida
em cada lado
do enlace
de nossas
mãos.

- dele -

22/02/08

anaclarararará

nem vou dizer que o maior problema da ana é não saber objetivar. porque o maior problema dela é saber que nem todo mundo gosta da poesia dela. que nem todo mundo gosta da poesia da bruna beber ou da marê. que nem todo mundo acha o luís lindo. que nem todo mundo é do jeito dela. que no mundo há gente, que sim, quer se casar e ter filhos. o maior problema da ana é saber que há um mundo girando e que esse mundo não é ela.

o maior problema da ana é que ela não nasceu na alemanha. nem se mudou para os estados unidos com quatro anos. nem trabalhou nos correios. nem se casou com mulheres feias. e não se chama charles bukowski. o maior problema da ana é que ela não nasceu no méxico. não teve um pai judeu. não quebrou o corpo todo em um acidente. e não se chama frida kahlo.

o maior problema da ana é que a poesia dela é objetiva como qualquer outra poesia. o problema da ana é que ela carrega uma dor que não é dela. nem do mundo. ela carrega uma dor pra tentar ser poeta. o problema da ana é que ela ainda não aprendeu a viver poesia. só a fazer poesia. o problema da ana é que ela acha que meia dúzias de frases de efeito e mais um bocados de letra minúsculas formam alguma coisa. o problema da ana é que ela ainda não aprendeu a sentir.

o meu problema é que eu tenho muitos outros problemas. e levo a vida assim. dominando a poesia pra subjetivar. e não ao contrário.

e essa é minha homenagem a ela: cheia de minúsculas.

te amo.

14/02/08

mor-te

Algumas coisas não têm explicação. Muitas coisas não têm explicação. Não que as pessoas não desejem objetiva-las ou simplesmente pensar sobre elas. (Porque pensar sobre elas já é dar sentido a essas coisas). Mas é que certas coisas são legitimadas. Abel, meu amigo, conseguiu o suicídio. Porque suicídio não é coisa que se tente, é coisa que se consiga, oras. O suicidio é legítimo. Quem se mata deixa carta por puro modismo. Porque suicídio não exige carta. A carta é para amenizar a dor de quem fica? Talvez. Mas morte é para doer. Se morte fosse coisa atoa ninguém ficaria prostrado diante dela. Morte é coisa séria. Principalmente pra quem vai. Mas eu sei lá se quem fica é quem vai. Se quem vai ainda não foi. Sei lá. Eu sei pouca coisa dessa vida. Amém.

Quando me disseram que Abel era morto eu só consegui pensar na carta que eu não mandei a ele e na poesia que começava a se formar na minha cabeça. A poesia que eu não escrevi, como a carta que não mandei. Eu também não sei porque não escrevi o poema. Talvez porque a poesia maior já estava feita desde a primeira vez que confidenciamos cigarros, Abel e eu. E porque escrever pra quem morreu é chato. É como o poema que fiz para o meu pai: só fui escrever ao velho depois de morto. Quando cheguei em casa e vi o corpo dele na sala, no lugar onde ficava o sofá. Naquele dia eu escrevi. E depois de escrever eu chorei. Para o Abel eu só chorei. Talvez porque não vi seu corpo.

A minha professora de Psicologia e Comunicação me disse que nosso quarto é o reflexo de como somos. Eu não sei como era o quarto do Abel. Mas a alma eu sei. Estava lá. A gente via. Mas me impreciona sempre quem tem coragem de se matar. Mas coragem a gente tem que ter mesmo é para viver. Morrer parece ser coisa fácil. Vai saber, nunca morri. A pessoa dar um tiro na cabeça e morrer, assim. Tem que ter o dom pra coisa, eu acho. Eu não tenho muita coragem pra viver nem pra morrer. Então eu vou, simplesmente. Vendo gente morta e gente viva. E nisso eu vou até aprendendo a viver. Porque viver é coisa que se aprende, eu acho.

No fundo eu queria era escrever sem tristeza. Abel era menino triste. Agora Abel é menino morto. Mas não aqui. Comigo não é assim. Mas eu gosto de gente que parece ser uma coisa e é outra. Assim como Bukowski nunca foi Beatnik; Bandeira nunca foi Modernista; e Abel nunca foi homem completo. Mas Bukowski e Bandeira foram maior que essas gerações. Por isso não fizeram parte delas, embora tenham as influenciado muito.

É isso. Um texto sem firulas. Porque firula não combina com morte. Com a morte é outra coisa.

09/02/08

você me prende por dentro

Qual a parcela de nós
que se torna
inteiro?
Minha boca sente o
teu cheiro
Com a minha mão
eu teu falo
(Você me prende
por dentro!)
Se eu te deixo
eu não valho
E meu corpo veste
teu corpo
Somos opostos e nos
distraimos
Somos dispostos e
nos atraimos
(Você me prende
por dentro!)
Minha língua
desbravando
as estrelas
da sua boca
Sua boca provando
das maçãs enraizadas
de meu corpo
Há mistérios sonoros
entre nossas mãos
(Você me prende
por dentro!)

- dele -

12/01/08

sem por cento

Minha casa virou a sucursal de um chiqueiro: roupas espalhadas, panelas sujas e tem até um ex-barbudo dormindo no chão do meu quarto. (O que a gente não faz para hospedar o namorado paraense de uma amiga, não?). Luís chegou e eu tive pouco tempo pra pensar e até mesmo escrever aqui, mas enfim, voltei.

Fiquei pensando na EDUCAÇÃO. Não que falte em mim ou no Luís. É que não sobra. E dizem por aí que “é melhor sobrar que faltar”. Luís molha o banheiro. Eu reclamo. Ele ri. E isso tudo me fez pensar que minha mãe não me deu educação, não me ensinou a viver. Nada disso próprio das mães. Minha mãe me disse “não use drogas, peça “por favor”, diga “obrigada” e não fale de boca cheia”. Só. O resto eu aprendi na lida. Minha família nunca foi daquelas de se sentar em volta da mesa e conversar sobre como foi o dia. Nunca fiquei sem sobremesa, porque em casa nunca tinha sobremesa. Sempre comi o que queria na hora que queria e onde eu queria.

Isso faz de mim alguém sem EDUCAÇÃO? Não sei. Eu dou “bom dia”. Levanto-me para outros se sentarem. E na medida do possível sou legal. Além de alguns pequenos problemas técnicos minha mãe nunca teve muito que reclamar de mim.

Mesmo assim estou certa que 97,6% do que somos vem de casa. Eu tive uma infância nas cachoeiras de Lima Duarte, caindo de bicicleta, nadando no sítio, escutando JAZZ com meu pai e brigando com meus irmãos. Isso compôs uma parcela muito agradável da minha personalidade. O resto vem com o tempo. E eu espero ter muito tempo ainda, pra poder compartilhar.

Estou certa que 96,4% da vida é compartilhar!

21/12/07

A borracha do destino anda em meu encalço, entretanto quanto mais eu corro, mais ela se gasta.



Então resolvi parar.

17/12/07

ane(never)sário

Eu não tenho culpa se no Carnaval algumas mães, mais serelepes, fazem dessa festa uma festa. De orgasmos. E gozado. Minha mãe é uma delas. Eu eu estou aqui. Completando 20 in(f)(v)ernos.

Mas eu prefiro os "desaniversários". Como a Lebre de Alice no País das Maravilhas.

10/12/07

(all)berto

Alberto chegou. Simplesmente. Tenho tentando fazer uma homenagem, declaração... o que seja, há muito. (Pois pra mim não tem nome, e nem precisa). Alberto é uma das pessoas que tenho mais sentido saudade ultimamente. Tenho saudades de seus braços e abraços. Mesmo que eu não os conheça. Isso é supérfluo. Alberto fez de mim súdita de meu próprio reino, onde agora ele é rei. Hoje sou Sofia sem Alberto. Anelise, Sofia que sofria...

30/11/07

alice sem coelho, sofia sem alberto, ofélia sem fauno e amelie sem nino

O clichê está em dizer “nossa, O Labirinto do Fauno é um conto de fadas”. Sim, é. Entretanto não quero me ater ao óbvio! De óbvio já basta minha cara de choro e pedindo bis quando o filme terminou. O filme deve muito a mente fabulosa de Guillermo Del Toro. Que o cara é fera, todos sabemos. Basta lembrar do HellBoy que ficou fiel ao HQ. De todo certo não quero creditar apenas Del Toro, afinal a equipe do filme é muito boa.

Não estou falando desse filme em vão, mas sim porque ontem assisti O Fabuloso Destino de Amelie Poulain (com essa já são 463 mil vezes de reprise). Rá. E esses são os meus dois filmes favoritos. E percebo semelhanças gritantes entre os filmes e dos filmes comigo, obviamente.

Ofélia e Amelie têm um pouco das duas e muito de mim. Aqueles cabelos curtos (em ambas) remetem a minha infância de cabelo chanel e imaginação fértil. Ofélia não tem pai, mas tem mãe. Embora essa a reprima (involuntariamente) em detrimento do padrasto autoritário (e rico). Vendo-se coagida pelo destino à imaginação da menina ganha asas. Não ousaria dizer que são apenas devaneios. Afinal, a realidade não é aquilo que se toca ou vê, mas sim o que se sente. E Ofélia sente. Sente muito. Em todos os sentidos de sentir.

Já Amelie não teve contato com outras crianças em sua infância. (Se repararmos, aquela cara popular dela – de desconforto – vem disso: ela ainda não sabe como se relacionar com os outros) Mas aí ela começa a trabalhar em um café e tem de se relacionar, querendo ou não. É destino mesmo. Quando ela acha a caixa e quer devolver ao dono o locutor diz: - Ela resolveu devolver a caixa. Se o dono se emocionasse ela passaria a resolver a vida das pessoas. Se não, ela deixaria pra lá. Ou seja, ela deu sorte de ele se emocionar. E nessa busca pelo dono ela passou a conversar com os vizinhos, os quais nunca tinha visto. Amelie ama Nino. Amelie quer Nino porque é seu primeiro contato com alguém. Nino quer Amelie porque todos seus contatos com alguém foram frustrados. Aquela cena do beijo no canto da boca, no pescoço e no olho (e que eu choro muito) é clássica: eles estão se reconhecendo. Conheceram-se através daquele jogo de gato e rato e ali estão se reconhecendo.

A semiótica dos filmes me encanta. A partir disso eu vejo até o que o diretor não colocou ali. Isso é bom. Conceitual. Ou seja, a melhor semiótica é aquelas que olhos conseguem ver. E a melhor Amelie ou Ofélia é aquela que eu posso ser.

26/11/07

signo por signo eu prefiro as letras

Depois de abrir este e-mail, não há retorno. Abaixo são verdadeiras descrições de signos do Zodíaco. Leia seu signo e reencaminhe-o, com seu sinal de Zodíaco e etiqueta na linha de assunto. Isto é a real, e se tentar ignorar ou mudar isto a primeira coisa que vocênotará será tendo um dia horrível que começa amanhã de manhã - e só obtém pior a partir daí.

SAGITÁRIO - O Ótimista (Verdade!). Agradável (As vezes!). Irrefletido (É). Não quer crescer (Peter Pan) (Estou mais para a bruxa). Favorece ego (E como). Orgulhoso (Muito). Gosta de luxos (um pouco, né?) e jogar (TRUCO ZAP NA MINHA MÃO!). Social e gosta de sair (Sempre). Não gosta de responsabilidades (Não mesmo). Frequentemente fantasia (Muito mais que frequentemente). Impaciente (Não é isso, é que hoje eu estou sem paciência, sabe). Divertido estar ao seu redor (Eu sempre me divirto estando comigo). Tem muitos amigos (Muitos colegas, amigos sempre são poucos). Não gosta de regras (Só de uma: não sigo regras). Às vezes hipócrita (Não). Antipatiza com espaços limitados - apertados ou até mesmo roupas apertadas (Sempre). Não gosta que duvidem dele (Ouviu? Ou melhor, leu?). Bonito por dentro e por fora (Mais por dentro, admito). 14 anos de azar se você não remete (Pouco me importa).

21/11/07

viver é apenas uma questão de semiótica

Semana de prova na faculdade é sempre chata. Não que sejam difíceis (longe disso), mas é que a idéia de estar sendo testada me lembra muito George Orwell, em 1984, e além, é claro, de que todos aqueles que ignoraram as matérias durante todo o semestre (e agora estão desesperados) me enfezarem bastante. Estudei um pouco para não me sentir superior e deslocada e resolvi dormir um pouco ao final da tarde. Afinal, levantar cedo, perceber que mais uma vez havia deixado faltar pão, gastar um vale e assistir a uma aula de Sociologia, em que nem me deixaram defender a legalização do aborto e uma bela surra para os jovens de classe média que espancaram a empregada, e tudo mais havia me deixado cansada e estressada. Dormir à tarde é sempre uma merda. E além de tudo havia um homem misterioso em meu sonho. Um homem que vinha me seguindo desde a idade média, mas eu nunca via seu rosto: máscaras. Seu objetivo: me matar. Mas sempre que ele tentava me matar eu me transformava em um demônio (LOL), e em segundos voltava a ser a menina que pede à mãe para dormir com ela... mas minha mãe se transformava nesse homem. Acabei atentando que esse homem me amava e por isso tanta dificuldade em me matar. Mas no final o fez. Colocou suas mãos em meus olhos, me beijou e eu me desintegrei em seus braços e acordei. Tentei dormir novamente. Mas essa era uma tentativa frustrada: o homem havia cumprido seu objetivo, eu não voltaria a dormir. Eu estava morta. Pensei em fumar, mas me lembrei que não fumo em casa, em respeito aos meninos que são caretas em níveis altíssimos. Não podia nem beber meu sagrado café: havia esquecido de comprar papel para a cafeteira. Na impossibilidade de coisas simples eu me sentei e escrevi esse texto. Quer dizer, eu escrevi deitada, porque não há mesa na minha casa.

20/11/07

Ana(lise):

Anelise
Anelise
Anelise

18/11/07

ontem

Sinceramente já não sei se a leitura incessante de Clarice Lispector tem me feito bem ou mal: estou dolorida, de uma dor chata e constante. Além de tudo Vinícius me trouxe a última entrevista dessa deusa, gravada em DVD. Na entrevista ela atribui sua tristeza ao cansaço, e talvez seja isso mesmo: toda tristeza é uma forma de cansaço e vice-versa, e versa-vice.

Ontem entrei no banheiro e fiz de novo. Chorei muito e sem saber apresentar motivo cabal. Eu tenho tido muita raiva do mundo, de todo ele. E tenho tido muito medo de mim.

Eu tenho um segredo que não quero mais guardar. Eu tenho ódio das pessoas. Às vezes, até daquelas que amo muito. Quando isso me acontece tenho vontade de bater, fisicamente mesmo. (É a minha vontade de descer a Rio Branco batendo em todo mundo!!!) E para não machucar as pessoas me auto flagelo: vomitando, me batendo na cara, me cortando. Fiz isso ontem. Fiz para não fazer com outras pessoas.

Imagino que um dia isso vá ficar muito mais sério, e nesse dia a única saída será me auto flagelar definitivamente. Não estou dizendo isso para obter pena, até porque eu odeio o sentimento de pena. Digo porque é a verdade.

Estou farta de me dizerem que escrevo bem, que sou inteligente, que terei um grande futuro. Crêem em mim, e entretanto não me deixam dizer em que creio. Estou farta.

Ora, quem eu quero enganar?

Meu maior ódio é o ódio que tenho contra mim mesma! Já não me suporto e não tenho objetivos. Estou morta por dentro. E não me digam “não fique assim”, pois é assim que quero ser... não sendo. E me auto flagelando.

15/11/07

a fantástica fábrica de Tom Zé!

Fabricando Tom Zé. Nome apropriadíssimo, afinal, se Tom Zé não existisse seria preciso fabrica-lo. Quando eu li no site do Luzes da Cidade que esse filme seria exibido (e de graça) eu me entusiasmei. No tão famigerado dia da exibição não havia nenhum famoso na platéia (ao contrário das outras seções que assisti, onde encontrei com Cláudio Gabriel, Mariana Ximenes, Gabriel Wainer, entre outros), mas foi talvez o filme que mais valeu a pena.

Tom Zé é um homem esquecido pela cultura brasileira e, no entanto a defende em terras estrangeiras, como mostra o filme no momento em que ele briga com um técnico francês, e diz: “Eles poderiam arrumar o som, but they don’t like the stily”. Tom Zé não foi, não é, e nunca será um tropicalista. Por quê? Porque Tom Zé é maior que a Tropicália. Ele pula e regurgita em todo esse movimento enquanto Gil e Caetano têm que se recobrir, pois são pequenos perto de Tom Zé. As enceradeiras já eram instrumentos para Tom Zé antes mesmo da Tropicália; o que aconteceu é que englobaram ele nesse movimento. Mas Tom é muito maior que isso, e mesmo quando a trupe tentou esquece-lo ele foi fazer show fora do país e virou cult aqui dentro.

O filme é muito divertido, mas com Tom Zé não poderia ser diferente. A película tem depoimentos de Gil e Caetano, e desses dois o melhor é ver o último dizendo que foi a um show de Tom Zé, com a ex-mulher, Paula Lavigne, e ela disse: “Caetano, você é bom, mas Tom Zé é gênio”. Minha tristeza mesmo foi ver os créditos subirem e perceber que o final do filme havia chegado: bem vindo ao mundo real
.

person: grande persona!

Person. Person não é propriamente a cara do cinema. Digo o filme, não o cineasta. Mas isso é bom, porque a obra de Person muitos conhecem, mas o além-obra, poucos. Creio que Marina, sua filha e diretora do filme, não se preocupou muito com o caráter cinematográfico da obra justamente porque essa é mais um afago no rosto de seu pai que propriamente um filme. Person é um filme de amor. Eu chorei, admito. Chorei por tudo: pelo amor que ultrapassa a morte; pelo grande cineasta que foi Person; por vê-lo tão bem retratado por si mesmo em seu São Paulo S/A.

Melhor ainda é ver que Marina Person é mais que a MTV, muito mais.

12/11/07

Festival Primeiro, segundo e terceiro Plano


Rafael: antes e depois de alguns vinhos não tem a mínima diferença.

07/11/07

cláudio gabriel: demolindo geral, prei!

O apresentador foi Cláudio Gabriel, ator, popularmente conhecido como o Severino, da novela Laços de Família: aquele que trabalhava no haras. Cláudio estava notoriamente perdido no meio daquilo tudo e só me pareceu se sentir bem quando foi chamando por Aleques Eiterer, diretor do curta A Demolição, no qual Cláudio faz o papel principal. Eu amo curtas por isso: a vivacidade da obra, que normalmente não tem final. Tanto é que o curta foi muito mais comentado que o longa: Amém!

Baseado no conto homônimo de Luiz Ruffato, o curta traz como base a frustração de um homem diante de seu sonho e os medos e traumas da infância. A história pertence à Gilmar, proprietário de uma lanchonete na periferia de São Paulo. Sua vida no presente, com 40 anos, é relatada a partir de flashes da sua infância, recuperada para demonstrar as conseqüências dos acontecimentos desta época na sua realidade.

Eu estava no coquetel, que aconteceu no MAM Murilo Mendes. Encontrei o Cláudio Gabriel e conversei com ele por horas: cara gentil e boa praça. Deu vontade de chamá-lo pra tomar um café na minha casa para conversamos sobre literatura e cinema. Em algumas horas de papo descobri que ele tem filme novo para estrear, que ele deu aula de teatro em Juiz de Fora e ainda brindamos muitos vinhos tintos. Aí eu disse pra ele: - Você é humano. (Ele balançou a cabeça sem entender muito bem.) – Você é humano – insisti. É humano. Deus não pode ser humano. Quando eu te vejo na tevê você é um semi-deus e, no entanto estamos conversando aqui, de igual para igual. Você é humano. (E ele riu, num sorriso complacente. Talvez ele estivesse pensando “que menina louca, acho que o vinho já subiu”.). Aí eu entendi: Mariana Ximenes e Duda Azevedo se tornaram humanos, mas sem que eu os conhecesse. Cláudio então se tornava, naquele momento, um grande irmão.

E assistam ao filme A Demolição!

não à babilônia!

Eu quero falar do Primeiro Plano. E quero falar muito. Porque pra mim essa é uma experiência nova: poder sair de casa, assistir aos filmes (de graça) e ainda poder conversar com os diretores e atores dos filmes (mesmo que esses não sejam famosos). Eu já reclamei no post anterior e agora quero fazer as menções honrosas. Então vamos... Primeiro o filme Podecrer!: é um filme comercial: é pra vender, não pra te fazer pensar. Mas nem por isso deixa de ser bom. Do elenco estavam presentes Dudu Azevedo e Julia Gorman, respectivamente, João e Duda. O diretor Arthur Fontes também esteve presente, falando xiiiiiiiis e Xeeester Xeeetos. (É que pra gente que fala “uai” é engraçado ouvir tantos seix, assim.)

Filme bacana semioticamente falando e: se bobear na praça a babilônia te abraça!

luzes (acesas) da cidade!

Daí o Fernando me convidou para ir à abertura do Primeiro Plano, o festival de cinema de Juiz de Fora, organizado pelo Luzes da Cidade (um grupo de cinéfilos). Eu aceitei. Na porta eu disse: - Como eu sou boba. – Por quê? – Porque eu acho coisas simples lindas. – Como assim? – Olha esse monte de gente. Tem pais trazendo filhos aqui, misturados com cults de cabelo curto. Todo mundo junto em um só espaço. Entramos no Cine Thetro Central e tudo parecia ficar mais poético, porque afinal de contas aquela seria a primeira vez que o teatro (e ex-cinema) tão antigo abrigaria uma exibição digital. Reencontrei amigos, conversei com gente nova e bacana e... vi a Mariana Ximenes e o Dudu Azevedo, atores globais. A Mariana Ximenes, totalmente fofa, acenou para mim quando percebeu que eu a olhava: ela é linda. Linda, mas não se misturou aos mortais. O mesmo aconteceu com o Dudu Azevedo, que entre o pessoal da Comunicação ficou conhecido como “o cara que quer comer a empregada na novela das oito”. Vendo famosos e mortais sonhadores no mesmo ambiente eu percebi a tamanha hipocrisia daquele lugar. É verdade que todos estávamos juntos em prol do mesmo bem, o cinema, mas nem por isso as desigualdades deixaram de aparecer. Não pelo fato da mistura entre famosos e nós. Mas pelo fato de que a maioria estava ali para assistir ao filme comercial da noite: Podecrer! Sem contar que o público não tinha maturidade (digo, sensibilidade poética) suficiente para assistir ao curta A Demolição.

31/10/07

vírgula, dois pontos:

,me permiti começar essa postagem com uma vírgula. No meio de uma aula de Português, da faculdade, a professora diz que não se começa uma frase com vírgula. Logo, arranquei uma livro da bolsa e disse: "Começa sim!". E mostrei o livro Uma Aprendizagem ou Livro do Prazeres, da Clarice Lispector. Eu entendo que Lispector usou da liberdade poética, e que se essa chatice não existisse Clarice poderia ter usado a vírgula no início, meio e fim. Clarice pode tudo. Chorei, copiosamente, nas primeiras 26 páginas do romance. Lóri era tão eu, Ulisses era tão ele. Fiquei até de madrugada lendo o livro, pra chegar em um final que não tem final. O livro começa com uma vírgula e termina com dois pontos. Depois de ouvi-lo gritar "eu te amo" com tamanha veemência e ler um livro que não tem final, me assustei. Mas Clarice pega nas nossas mãos e as afaga e pede calma. Ela nos faz delirar e pede calma. Morde e assopra. Eu, deitada em minha cama, entortava os dedos dos pés; era obrigada a parar sempre para respirar. Dava longos suspiros. Lia mais um pouco. Parava. Chorava. Achava Lóri e Ulisses as pessoas mais fodas dos mundo literário. "Lóri, Lóri, você é do caralho, moça". "Ulisses, seu bom filho da puta". Mas os dois se consubstanciavam: Clarice Lispector. Livro encerrado: eu me sentindo uma completa idiota: não era/não sou Clarice. Nunca serei. Corri a Biblioteca, na pratileira "Romance Brasileiro" e peguei A Paixão Segundo G.H., cheguei jogando a bolsa para um lado, tênis para o outro. Caí no chão com o livro e comecei a degusta-lo: susto. Mais um não-personagem de Clarice; mais existencialismo; baratas e coisas afins. Mais eu na minha própria cara... e sem me ver! Como diria o Luís "diálogo são dois monólogos". Não sei se foi assim que ele disse, mas ele disse algumas coisa assim, que provavelmente eu trasmutei para o que melhor me coube. Mas eram sim, dois monólogos: o meu, e o meu comigo. Parei no primeiro capítulo porque:

17/10/07

restrutu(arte)

Por Deus, Maria, José, Jesus e Papai Noel: arte não tem valor axiomático, eu sei! Então não levem a mal o que vou dizer, ou levem. Afinal, esse espaço é meu e não é democrático.
Não, eu não tenho nenhuma formação acadêmica nessa área, mas leio assaz, boto a mão na massa, converso bastante e não sou nenhuma porteira que não pode aprender, ora. Quando eu era criança tinha um ateliê montado em casa, coisa rústica, admito. Mas era meu, fruto do meu suor e do meu pai, que levantou tijolo por tijolo. Leio assiduamente desde os 11 anos e escrevo desde os 13; fiz teatro e dança muito tempo; visitei espaços artísticos magníficos. Sou melhor que alguém por isso? Tanto posso afirmar que sim, como não. Eu fiz e pronto. Detesto quando dizem que a gente tem que ler e gostar de arte. Isso são coisas importantes, não fundamentais. Não vou persuadir ninguém a gostar: minha vó viveu numa tribo indígena metade da sua vida e nem por isso deixou de ser uma pessoa melhor. Ative-me a pensar em todas essas definições, hierarquisações e burocracias impostas a arte: um saco. A arte me parece ser uma criança: se precionarmos ela foge. São tantas artes que a gente fica louco, sabe. E tem mais, currículo de dançarina e coelhinha da Playboy é "modelo-dançarina-artista". Deturparam esse concei... É, conceito. Arte Conceitual. Quer coisa mais chata? Arte conceitual é quando o conceito da obra é o aspecto mais importante da mesma: o francês Marcel Duchamp colocando um vaso sanitário em uma galeria de arte. Não, não importa o conceito, porra nenhuma. Eu cagando deve ser uma obra de arte incrível, então. Nem todo mundo é artista, nem todo mundo é poeta, embora tentem. Não desmereço a obra de Duchamp, longe disso, mas eu quero fazer entender que a arte vai além desse soco no estômago. A arte é o soco com "mais alguma coisa"... E o porém está em descobrir essa coisa, porque embora conheçamos algo, não necessariamente somos obrigados a ter consciência sobre esse algo. Então não basta olhar uma exposição ou ler Nietzsche se não tivermos consciência sobre eles. Do contrário continuaremos lendo críticas como a que eu li em uma exposição, de fotografia em preto e braco, do CCBM: - Sua exposição é ruim porque não tem luz!

orelha de burro, cabeça de et

Infância! Lembro das crianças cantando (eu entre elas, obviamente): "não sabe, não sabe, tem que aprender, orelha de burro, cabeça de ET"! Aquele tempo passou e eu cheguei à faculdade. Nossa! Aqui a gente não precisa cantar essa música: dá pra ver só na cara das pessoas. Não tem lugar mais engraçado que o curso superior: pessoas que simplesmente ignoraram a filosofia durante toda sua vida chegam aqui desesperadas. Cena da aula de ética: - Ai meu Deus, a gente começa a pensar um monte de coisa ao mesmo tempo! Pois é, meu bem, pensa um monte de coisa porque deixou pra pensar tudo agora. A cara de desespero das pessoas quando se deparam pensando é ilária e não tem preço. Nem o MasterCard compra.

velhice, velhice, tudo é velhice!

Salomão dizia: vaidades, vaidades, tudo são vaidades. Eu digo: tudo é velhice. Saí de casa hoje cedo, e pra variar todos os velhinhos estavam lá, sorridentes. (Meu bairro é um dos mais antigos da cidade, e as pessoas idem, rá). Velhinhos dizendo bom dia: lindo.

Aí veio a teoria: para ser novo alguma coisa teria de ser... nova. Ou seja: ainda não inventada,... melhor, ela teria de ser inventada naquele momento. Então quando eu digo: "eu sou nova" é uma mentira descabida, já que outras pessoas nasceram antes de mim e isso está aí desde que descobriram que sexo não é só bom, é, também, muito utisado na reprodução.

Mas quando uma coisa passa existir ela não deixa de ser nova? Assim então, tudo seria velho?

16/10/07

ane(lise)

Eu nunca gostei tanto do meu nome quanto gosto agora. Não sei se é porque eu conheci a Ana e nossos nomes são legais para formação de uma dupla sertaneja: Ane & Ana. Ela é palindrômica, eu polindrômica. E tem também a possibilidade de brincar com meu nome, em um simbolismo concretista: Ane e Lise ou Ane(Lise). Lise é quebra. Ane é Ane, porra! A Ana só me chama de Ane; o Alberto de Lise; meu pai me chamava de Nelise; minha sobrinha de Nininha; minha prima de Lele; ou seja, são muitas, as variáveis.

A melhor é a Aninha. Está certo Aninha é uma alcunha normal e categoricamente popular, entretanto a história que envolve esse apelido dá um ar bucólico e familiar. Minha tia, irmã da minha mãe, me deu esse apelido, assim como me ensinou a falar buceta, sendo essa a primeira palavra de meu vastíssimo léxico. A princípio a idéia de nome era Ana Elisa, mas minha mãe tinha uma teoria filosófica: "filhos de pobre cujo nome é Ana recebem o apelido de Aninha". Assim, ficou decidido que meu nome seria (e é) Anelise. E "pra facilitar na alfabetização", como continuou minha mãe, seria apenas Anelise de Freitas. Excluindo, assim, veementemente o sobrenome materno, deixando apenas o de meu pai. Minha tia, para não deixar barato colocou o codinome, comprovando cabalmente a tese de minha mãe: filhos de pobre, invariavelmente, recebem apelido de Aninha, mesmo que se chamem Carlos.

Em relação ao meu nome, a única queixa que eu tinha é de nunca ter um poema ou música em homenagem às Anelises. Não sei se toda Ane carrega as “cruz” de uma Aninha. Mas eu levo, e então me contentava com as músicas para Aninhas, mas a única existente era um axé que dizia “vou à praia com a Aninha pra aprender a nadar”. Digamos assim que a complexidade da música não me animou. Aí o Engenheiros do Havaií lançou Refrão de um Bolero, e dizia que os lábios da Ana eram labirintos, que atraiam os instintos mais sacanas dele. Ok, atrair os instintos mais sacanas do Humberto Gessinger me parece bem legal, e bota legal nisso. Mas na letra original ele diz “que atraem os meus amigos mais sacanas”, ou seja, a Ana é uma traidora sem escrúpulos, meu Deus, trair o Gessinger? Deve está louca!! Mas enfim, mesmo que a Ana tivesse seus motivos para trair tão belo guri, eu ainda não era Ana, embora fizesse força pra ser, eu não era.

Vasculhei essa tal de Internet e descobri uma música para Anelise:

Preciso de Você (Anelise)

Jaun Carlos E Anelise Toncovitch

Os dias são tão diferentes sem você
Tanto tempo longe,
Tanta vontade de te ver
Tô precisando tanto de você
Tô precisando tanto te sentir
E o modo como você me faz sorrir
Seu cheiro, seus olhos
Preciso tanto de você
Como os pássaros do ar pra voar
Quero voltar para os teus braços
Aquecer-me nos teus abraços
Deixar o mundo pra trás e fugir com você
Sentir teu corpo me apertar
No teu beijo me matar
E de todo meu amor você irá saciar

Seja lá o que vão dizer
O que importa sou eu e você
E mesmo que tudo esteja pra acabar
Eu vou estar do seu lado pra te amar
Seja lá o que vão dizer
O que pensam sobre eu e você
E mesmo que tudo esteja pra acabar
Eu sempre vou estar lá pra te amar


Reparem bem que a co-autora é uma Anelise. Ela se escreveu uma música, rá. É autêntica: ego excêntrica como uma boa Anelise tem de ser. Eu nunca escutei a música, só li. Não sei quem são esse dois loucos. Mas eu achei alguma coisa que faz menção honrosa a nós, mulheres-Anelises. Anelise é mais que a junção de Ana+Elisa. Anelise vem do germânico (!). Ane é graça e Lise é juramento de Deus. Que lindo, não? Não. E tem muita gente que não consegue falar meu nome nem escrever: - Como é seu nome? – Anelise. Como? Denise? – Não, Anelise! – Ana Elisa? – Não, A-ne-li-se!! – Ane Elise? – Não, porra, A-NE-LI-SE: com “s” e tudo junto! Então se ta difícil falar Anelise, sua porteira, ao invés de falar Melise, Denise, Ana Elise, Ana Elisa, Elisa ou qualquer porcaria que o valha, fale em queniano “ERUVANDANNË”, porra.

E lembre-se: Anelise é tímida; a Ane é pra frente; a Lise é triste; a Aninha é extrovertida. E vê se não esquece e pronuncia meu nome certo, ô bosta!

13/10/07

felicidade: o resto é coisa de emo!

Passou um ano! Um ano de Blog e muitos outros de idealização. Tá certo que um blog não exige muito, mas eu faço com carinho. Faço com amor e porque eu sou... vaidosa. Não é pra menos que eu me olho no espelho constantemente e pinto os olhos felinamente. Sim, eu me amo e sou plenamente correspondida. Amo outras pessoas. Muitas delas postantes aqui... Outras eu não amo, mas sei que me vigiam. Para essas eu digo apenas: a conversa é entre A e B, C tá fora. Para aquelas: eu amo vocês, seus preis malditos. O primeiro post sobre meu amigo Rattes e a Cecí, sua namorada, até o post atual, sobre o pessoal de Belém. Porque ultimamente eu tenho vivido mais no Norte do país que em Minas. Eu agradeço vocês, e muito. Porque eu não faço só pra mim... já disse, sou vaidosa. Gosto do que escrevo. A Ana não me abandona. O Luís aprendeu a gostar porque a Ana gosta. O Alberto aprendeu a gostar porque o Luís gosta e o Luís gosta porque a Ana gosta... e porque ele é poeta por auto-sugestão, como eu. Eu o amo. Amo a Ana e o Luís. Devo tanto a Ana. Escrevo pra Ana. E até minha mãe acha que a gente é lésbica. Mas não somos... é amizade demais, prei. A Andrya, doce, que vem também, eu acho. O Rui é um grande amigo. Ancião por auto-sugestão. Amor por inteiro. Vem e fica. Delicia-se. Delinia-me. Obrigada. Obrigada. Sempre. Obrigada por aceitarem minha divagações. Eu só sei divagar. Ir devagar. Beijos. E continuarei postando, mesmo que a (dita)(dura) me pegue e me bata, ainda assim respeitarei vocês. Só vocês: amados. Porque como diria o mestre Abujamra: se você me respeita eu te desprezo.

11/10/07

pará go minas

(a luís, alberto e andrya)

paragominas
pará go minas
pará vem pra
minas
e as minas
pára pará

out/2007
anelise f.

08/10/07

eu

Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Ele.

04/10/07

eu-lírico

eu-lírico
eu-lírio
eu-lira

eunuco
eu-nuca
eu-nunca

eu-choro
eu-coro
eu-corro
eu-morro
eu-morto

eu-consumo
eu-sem sumo
eu-sem saco
eu-seu senho
eu-tenho

eu-tu
eu-nós
eu-após
eu-atroz
eu-veloz

eu-mini
eu-macro
eu-marco
eu-parto

eu-dô
eu-dó
eu-pó
eu-só

jul/2007
anelise f.

socorro, só morro

mote da
literatura
morte da
literatura

03/10/07

narciso

(de um poema de federico garcia lorca)

menino,
não te vais cair no rio!

dentro da rosa tem outro rio,
e dentro do rio só tem mais água.

menino
a se amar
e narciso que não é bobo
aprendeu a nadar.

maio/2007
anelise f.

02/10/07

genealogia

A morte de meu pai não exclui os 23 cromossomos confiados a mim; assim como o ser equivale mais a um existir! Ser não é estar. São verbos... Conjugáveis! Tu sois, tu sóis! Two sóis! É que sexo pra mim é coisa pouco pudica; é mais beijo, orelha, tato, carne preenchendo vácuo. Porque assim, né? Minha letra é cheia de irregularidades e pô, EU DETESTO NEGUINHO QUE RUMINA O CHICLETE AO INVÊS DE MASCAR! Até porque se o sangue de mênstruo fosse algo valioso eu doava para os hemofílicos (ou algo que o valha), mas não, não vale nada! Ahn, como faço verso? Pego caneta e papel: escrevo! A tá, como faço poesia? (Bom tu reparar que verso e posia são coisas complementares, mas não a mesma coisa). Eu faço poesia assim: pego na lixeira fétida do mundo tudo aquilo que você e uma imensa parcela da humanidade joga fora por desuso: a vida, porra! Aproveita, manda um beijo pra tua mãe, diz a ela que foi a minha melhor sogra: nem a conheci. "Caramba, você cresceu, hein menina?" Putz, tu achou mesmo que eu ia ser criança pra sempre? A gente faz tanta pergunta retórica à vida: qual seu sentido, por exemplo. Mas idade, "estou bem, obrigada" e cálculo de grau elevadíssimo, às 7 da manhã, a gente tem que responder. E é por isso que digo, sim!
maio/2007
anelise f.

01/10/07

fuck lore

toda lágrima
é livre
para desbravara face
assim como o suor
perpassa os corpos

as vezes
é teu suor
nos meus poros
os teus poros
no meu corpo

as lágrimas
desaguam nos lábios
que secam
e tangem teu corpo

jun/2007
anelise f.

29/09/07

eu vou chamar o síndico!

Os paulistanos que me perdoem, mas São Paulo fede à merda. Em São Paulo não há céu. Mas acho que vocês sabem dessa realidade. São Paulo é composta por caixotes arquitetônicos. São Paulo é uma sociedade de massas: não há unidade identitária. São Paulo é uma ilusão (idi)ótica: prédios ostensivos e barracos medíocres. Em São Paulo, não se pode andar mais de um metro, no trânsito, sem que um semáforo acenda-se vermelho e impeça nossa passagem.Tudo junto de tudo. O que acontece quando nada acontece em São Paulo? São Paulo é comunicação visual em demasia; um W gigante que o prefeito mandou tirar: poluição visual. Aaaarr, e ainda a chamam (carinhosamente) de “Sampa”.

“Que porra é essa?” – pensei - “A W/Brasil é isso?”. Decepção. Tive muito tempo pra idealizar a agência de publicidade W/Brasil: um W gigante ostentando poder e um prédio coberto de luxo. Mas não: um prédio cinza concreto, de três andares. Convenha, depois de dez horas de viagem eu tinha esse direito.

Entrei. Amei. Toda a estrutura, as pessoas, o método: foda. Saí de lá chorando, depois de beber guaraná e assistir ao comercial do primeiro sutiã. Porra, até eu que não era nascida (na época), me lembrava daquele comercial. O Olivetto é o publicitário mais publicitário que pode haver (e isso é bom). Trabalhar com ele deve ser muito gratificante.

Subir ao topo do prédio e ver grande parte de São Paulo, lá em baixo, fez todos as horas mal dormidas valerem a pena. Fez-me perceber que o cara não precisa daquele tipo de publicidade: placas e prédios grandiosos. Olivetto é bom, isso basta. Saí de lá decidida a trabalhar na W/Brasil: aqueles sonhos grandiosos que temos enquanto acadêmicos. E não tem jeito, eles são a maior agência de publicidade do país mesmo: me fizeram voltar achando Sampa a cidade mais linda do mundo!

26/09/07

rui vaz, rui faz!



Rui, Rui.

Rui é uma grande alma, que não me deixa ver seu rosto. Seu corpo é um enigma para mim. Não me importo. Rui é o que é, isso me basta. Mas não o amo simplesmente porque ele é, o amo porque ele é para mim. A relação de amizade é essa: uma eterna escravidão prazerosa. Ele me dá prazer, assim o amo. Falar do outro é sem dúvida nenhuma uma merda: não se pode definir tudo. Certamente Rui é muito mais do que minhas palavras podem definir. Rui dá valor em cada uma de minhas palavras e as guarda como se fossem ouro: "Olha, falava de ti agora, no MSN. Recordo com gratidão essa frase que outrora me disseste e que soa TÃO BEM: 'A minha casa é a tua casa, o meu teto é o teu teto e as minhas estrelas são as tuas estrelas!' E eu acredito em tudo..."

Gosto dos versinhos: "Quanto a mim, eu bebo néctar e como flores... e amo a Tua Alma de mil cores!" Compartilha comigo momentos que não são dele. Mas acabam sendo. Rui, Rui. Digas-me que não és um fake. Caríssimo, o corpo não é nada perto das idéis. E as tuas são tão jovens. Se consubstanciando as minhas. Tejo maldito, a nos separar.

18/09/07

na dança dos quatro f´s

Fernando Fábio Fiorese Furtado. Lembro-me do Rattes (o meu dileto amigo-poeta, Tiago Rattes) falando sobre o Fiorese: "ele é aquele tipo de cara que você tem vontade de abraçar e dizer 'te amo', mas não consegue; ele é meio fechadão". Desde aquele dia eu não esquecia mais aquele nome: Fernando Fábio Fiorese Furtado. Popularmente conhecido por Fiorese. Procurei no Google. Achei poesias. Resenhas. Li. Reli. Chorei. Fiz vestibular para Letras (esperando ser sua aluna), não passei.

Fernando Fábio Fiorese Furtado. Lembro-me do Paulo Roberto (outro, não menos querido, amigo-poeta) falando sobre o Fiorese. Eles se encontraram: duas almas perdidas se fundindo. Cinema. Poesia. Arte. Beleza. Dois amados.

Fernando Fábio Fiorese Furtado. Um nome. Mais que um nome. Sinto por ele a mesma admiração que tenho por Augusto dos Anjos ou Rubem Fonseca: amor poético sem tocar nem ver. Vivemos na mesma cidade e nunca nos vimos. E para ser sincera eu tenho medo de vê-lo: ele se tornou algo inatingível. Um semi-Deus. Um ídolo.

Fernando Fábio Fiorese Furtado: não saberei dizer o porquê de tanto carinho. Quem sabe um dia nós nos sentaremos para tomar um café e ler Kafka ou então eu serei sempre a eterna súdita que saúda seu rei, sem nunca conhecê-lo.

03/09/07

bendito seja nietzsche que nos reuniu no amor à filosofia!

Você anda um pouco revoltado, desconfiando dos seus pais? Achando a sua escola a mais ordinária? Já pensou na possibilidade de que seus pais não tenham toda a verdade para você!! Pois as chances são altas de aprender mais fora da escola do que dentro dela (não me entendam mal, não estou dizendo que ela não seja importante)! Sejamos sinceros, a maior parte das coisas que eu aprendi não foi em nenhuma sala de aula, e pra falar a verdade: a escola atrapalha meus estudos.

Concordo com você, talvez um livro não diminua a emissão de gases poluentes na atmosfera terrestre, não pare as guerras, não desvie uma bala perdida; Mas a leitura pode sim, formar um novo grupo, mais confiante e muito mais consciente de seus deveres! Se Deus existe, que ele abençoe Millôr Fernandes e que o perdoe por ser colunista da Veja; mas o fato é que ele disse algo magnífico, talvez nem tão magnífico assim, mas que se encaixa perfeitamente para este texto: livro não enguiça.

07/08/07

a CEMIG salvou minha morte!

Lembro-me bem: em frente à casa de minha tia havia (e há) uma estação da CEMIG. Quando eu e minhas primas íamos fazer piquenique por lá minha tia sempre dizia: “não toquem no portão, ou vocês morrem”. Olhávamos aquela caveira indicando PERIGO (!) e o medo aumentava. Afinal, morrer não parecia nada bom! Se nos dissessem que machucaria ao invés de matar, ainda poderíamos tentar, pois machucados saram. Mas matar é irremediável. A morte era (e é) um mistério para nós. E além do mais não sabíamos se tínhamos feitos boas ações suficientes para nos levar ao céu (em nossa treda e psicótica visão cristã) ou se nossas mães ficariam bravas se morrêssemos assim, sem avisar ou pedir (naquele tempo éramos obedientes – fato que talvez nos levassem ao céu, não fosse as brincadeiras com fogo).

Mas depois de usarmos a lógica (infantil) tomamos doses alopáticas de coragem e resolvemos desafiar a danada. Afinal, a CEMIG não colocaria um portão elétrico, correndo o risco de MATAR e/ou ser processada. Porque se morrer não era bacana, matar também não! (Óbvio que não pensávamos com todo este embasamento intelectual – éramos só crianças querendo brincar, poxa). Colocamos a mão no portão e o que aconteceu? Nada. Além de um prazer por ter enfrentado a morte e nossos pais.

A morte assusta! Isso é óbvio. Mas ela não pode impedir. Podemos até agir com resignação diante da morte; mas não diante da vida.

06/08/07

mate um romântico: por um mundo feliz!

Eu não agüento mais romance!

Quando eu li pela primeira vez Lucíola, do Zé de Alencar, pensei que seria um livro legal. Fácil de ler foi. Mas eu não suporto essa coisa “oh, sou puta, não posso amar” ou “vou matar a personagem, só assim ela pode se redimir”. Ta certo que o contexto da coisa é em um século diferente, com princípios e valores diferentes, né? Mas se o cara abusou em escrever um livro desse, podia ter dado um desfecho mais abusado também. Lúcia morre! (Ainda bem. Chata daquele jeito!)

Aí eu fiquei pensando e lembrei de outra puta chamada Lúcia: a McCartney, de Rubem Fonseca. Meu rocambolezinho de emoções, chamado Ana Clara, vivia dizendo ‘leia Rubão, leia Lúcia, vai gostar’. Li. Gostei. Lúcia ama. Lúcia é a maior poeta de todas nós. Ana e eu nascemos de placentas diferentes, mas somos uma na barriga do destino. Somos uma coisa só. E somos Lúcia.

Lúcia é puta. Mas é humana. Ela sai, e faz seus programas. Como toda boa puta deve fazer. Volta e é como eu, Ana ou você. Sentimentos. E ainda dizem ‘puta não beija na boca e não se apaixona’. Mas Lúcia ama Zé Roberto (outro Zé filho da puta, como o Alencar), mas esse é um dos filhos da puta que a gente acha adorável e se apaixona. Fala bonito. É inteligente. E misterioso. Mas como todos os outros, vai...

Esse conto é o que dá nome ao livro. Homônimos. Mas o resto do livro é bom demais. É violento. É sangrento. Tem palavrão. Tem pornografia. Tem Rubão expondo a ferida e metendo o dedo na própria! Aí resolvi (mais uma vez por insistência da Ana) ler O Cobrador, do Rubão também. E ela dizia ‘vai se identificar com a Ana Palindromica’. Mas não, eu sou O Cobrador. O mundo também me deve. Algo. Alga. Água. Alma. A Ana, de Fonseca, é palindromica. De um lado ou de outro é a Ana. O Cobrador não tem nome. Pode ser eu, Ana ou você. Sempre. Eu tô apaixonada por Rubem Fonseca. Esse canalha!

Aí resolvi procurar uma foto do Rubão. Deu vontade de sexo. Sexo com ele. O amo, oras. E ele me lembrou (fisicamente) um cara que quando leio os poemas ou contos ou a biografia, me excita. Bukowski. Charles Bukowski. Ou Buk. Outro que vai com os dois pés no peito. Eu gosto disso. Admiro essa qualidade. Gosto de sexo. Bebedeira. Pancadaria. Sangue. Lixo. Rua. Sarjeta. Quartos mofados. Beijo no pescoço. Gemidos. Batom reboca. Esmalte descascado. Puta. Peito. Eito. Jeito. Braço. Nuca. Pico. Pica. Virilidade. Vadiagem. Sacanagem. Em Notas de um velho safado, Buk da show. ‘Bochechas do meu cu’. Ou quando come a vizinha. Ou quando é um cão sarnento. Ou quando a Califórnia vira Veneza.

Eu amo tanta gente! Mas eu queria mesmo era uma orgia: eu, Buk e Rubão. Rabão. Ão. Eu gosto dos dois pés no peito: Augusto dos Anjos, de Campos, Nietzsche, Rubão, Buk, Leminski, Álvaro de Campos, Lispector...

Quem agüenta Otelo, aquele idiota, que acredita em tudo que o Iago diz e ainda mata Desdêmona? Ou Romeu e Julieta morrendo? Shakespeare! Literatura de bastardos! Eu tô meio sei lá e não me amola!

10/07/07

3:55

anelise f.
À veemente amizade com Ana Clara Dias

acordamos
para a nababesca
realidade
do mundo
(não dói
muito –
mas é
chato –
como bater
o dedinho
na quina)

sem aquelas
mãozinhas
furtivas
pintar os olhos
é pouco a pouco
mais chato
mais vácuo

ela é minha
maior e melhor
poesia
eu sou o erro
que contribui
para o
verso dela
dela, ela, cadê ela?
cadela!
cachorra
porra!
quanta saudade!

meu léxico fica mais pobre
o mendigo menos nobre
e a vida (mineiramente)
mais devagar!

slow motion;
no emotion.
poxa!

não beijo a boca dela
(daquela cadela)
não porque tem uma
língua feminina
é porque a boca dela
mais a boca minha
só se aninham
para beber o láudano –
choro
de nossas desventuras
e aventuras
e ditaduras
e dita cujas!

viver é o maior verso
que eu, santo deus,
posso fazer ao lado dela

ao lado dela
é querer rasgar folhas
quebrar canetas
apagar “versinhos
de vanguarda”

ela vê beleza em mim
sem saber que a
sugo
dela
fim.

02/07/07

o que você vai deixar?

Partindo de um pressuposto cético de que por trás da morte só há terra e caixão a premissa “na morte não se leva nada” torna-se extremante verdadeira. A sociedade (subentenda-se “pais” na maioria das vezes) nos cria com a pretensiosa idéia de que “sem os estudos não somos ninguém na vida”. Mentira! Não somos ninguém para a sociedade, né? Cria-se um ciclo “alimentar”: dinheiro – estudos - “tornar-se gente” - trabalho – dinheiro. (Pó, dinheiro apareceu duas vezes, hein?)

Mas aí vem aquele cara estereotipado (pobre, porém intelectual) e diz: dinheiro pra quê se quando eu morrer não vou levar nada comigo! Ok. Concordo: dá pra levar, mas utilizar é que são elas.

Aí vem o bon vivan, que gasta 3 mil dólares em sapato pra cachorro (não que eles não mereçam, mas...) e diz: idéias, pensar, pra quê se quando eu morrer não vou levar nada comigo! Epa! Eh senhor intelectual, dessa vez ele te pegou...

Sabe o que é, na (e da) vida vale mais deixar que levar... Pensem nisso. (E criem uma dissidência!)

25/05/07

feminismo não é sexismo

anelise f.
Vou começar do início: há três dias...

...Em uma das minhas visitas semanais a biblioteca municipal “Dr. Manoel Delgado Motta” - que diga-se de passagem, possui um magote muito bom – acabei indo de encontro (literalmente, dei de cara mesmo) com uma mocinha “acidentada”. Na contra face de seu livro ela citava outra mocinha “bem comportada”: Simone de Beauvoir.

A princípio o que mais me chamou atenção foi a belíssima capa do livro; vixe Maria, de uma sensibilidade feminina mesmo, (mas foi um homem que a reproduziu)! A capa: uma mulher, militando, amamentando... tudo na mesma foto, na mesma pessoa. O livro: Na Luta (Sem Pedir Licença). A autora: Eliane Maciel (que desde o momento em que decidi que aquele seria o livro locado da semana se tornou minha amiga mais íntima). E como um de meus processos literários do momento era justamente Simone de Beauvoir, com suas “Memórias de Uma Menina Bem Comportada”, corroborou e muito para a escolha desse livro.

Porra! Tratando-se de leitura (da leitura “especial” da semana, digo) sou muito metódica: antes os clássicos – os mais conhecidos na realidade. E com Nietzsche e Bukowski em casa, por ler, eu estava levando mais um livro (de uma autora até então desconhecida). Devo dizer que a apresentação do livro, feita por Ignácio de Loyola Brandão, muito me impressionou... Logo no primeiro capítulo do livro, naquele misto de prosa e poesia, não me contive e soltei um “caralho”! Pois é, a menina (hoje com mais de quarenta anos) era, e é, boa! (Foi bom quebrar a cara!) Narrando sua vinda para Juiz de Fora eu imaginava por quais ruas teria ela passado? Seriam as mesmas por onde ando, andei? Putz estava tudo muito próximo de mim, e isso me fazia amar mais ainda o livro (materializado), a história, a mulher, a militante, a mãe... Livro em prosa, mas era poesia saindo dos poros, a cada fragmento um soco no estômago, era constante. A minha vontade era grita “te amo, guria”, e assim o fiz!

Mas tudo isso era apenas uma introdução! Como Eliane diz: o bom leitor “traça” em duas horas. Entretanto eu tô com o Loyola: demorei um pouco mais. Então levei o livro para a loja onde trabalho, afinal, há de se matar o tempo enquanto só o frio e eu habitamos a loja. Toda entusiasmada mostrei o livro a um amigo que me visitava (sim, recebo visitas no trabalho), dizendo: olha essa capa, que coisa mais linda. “Linda mesmo!” “Imagine você que nessa época ela tinha 22 anos, 3 filhos, “fugiu” com um cara quando tinha 15 anos e é militante das causas feministas!”. Mas meu amigo fez questão de cerrar o papo, dizendo:
não agüento isso, feminista e com três filhos?!

Como assim? Acaso uma feminista não pode ter filhos? Uma feminista tem sonhos, anseios e vontades, sim! Mas aí percebi que esse meu amigo está impregnado do sexismo!

O que vemos em alguns grupos que se dizem feministas é uma briga ferrenha entre os sexos: mulheres querendo que os homens paguem pelos anos de nossa submissão. Para tal não se deve casar, emprenhar, ou sequer amar. São mulheres que para lutar contra a sociedade dos “sacos escrotais” acabam se “tornando” homens.

Entender nossos limites é fundamental para que saibamos viver em comunhão. Homens são eventualmente mais fortes, nós sensíveis; mas não significa que homens não sejam poetas e mulheres não possam trabalhar em obras, por exemplo.

Nossa luta é outra! Temos compromisso social; lutamos contra os sexistas, sejam eles homens ou mulheres.

Simone de Beauvoir escrevia cartas declarativas a seu amado Sartre. Que mal há nisso? Não ter vergonha de seus sentimentos é lindo! Isso não é submissão! Amor não é submissão.

Como diria a Lana ou o Rui (sinceramente não me lembro, mas tenho pra mim que foi a Lana): carrego em mim as dores de todas as mulheres! Simones, Elianes, Anelises, une-vos!

23/05/07

nada de lesco-lesco

Ah, o trabalho! Nos faz refletir sobre coisas absurdas. Coisas que em sua maioria jamais achamos que iríamos refletir com tal fervor. Claro, sempre relacionados ao trabalho. No meu caso, filmes. Ou melhor, a classificação deles. Porra, são muitas: triller, terror, suspense, guerra, policial, musical, épico... Aff! Aí minha objetividade aflora.

1) faz rir: comédia;
2) faz chorar: drama;
3) faz movimentar: ação;
4) tem música: musical;
5) faz sangrar: terror;
6) faz arrepiar: suspense;

Pronto, resolvido!

22/05/07

quem você comeria?

anelise f.
Dentre todas as minhas elucubrações, devaneios e divagações há pensamentos que servem para alguma coisa (assim espero), outros servem também, mas são essencialmente mais brincalhões, é uma forma de descontração. Pois quem muito lê, muito pensa e isso tudo tende a loucura. Então não paro de pensar, só deixo em stand by. E agora é um desses momentos. Estou a pensar quais artistas eu comeria. E segue a lista e o motivo para eu me lambuzar em tão saborosos corpinhos!

INTERNACIONAL:


Kevin Spacey – Ator (comeria por Beleza América e A Vida de David Gale, mas regurgitaria depois de Superman – O Retorno);
Jonny Depp – Ator (comeria por tudo e de qualquer jeito, mas Mãos de Tesoura é top);
Eva Green – Atriz (comeria por Os Sonhadores e Arsene Lupin (mesmo ela morrendo no final, bah), mas não por Cruzadas);
Audrei Tatuo – Atriz (comeria por Amélie Poulain, e nunca por Código DaVinci);
Bukowski – Poeta (comeria porque ele era extensão do meu eu);

NACIONAL:


Daniel de Oliveira – Ator (comeria por Zuzu Angel, por Cazuza, mas nunca pelas novelas);
Selton Melo – Ator (comeria de cabo a rabo, não necessariamente nessa ordem; comeria pelo Cheiro do Rabo, quer dizer do Ralo);
Caio Blat – Ator (comer já basta);
Michel Melamed – Poeta (comeria pelo Tudo de bom pra todo mundo, e só por ele existir);

26/04/07

ah, futuro

Em dias quentes e ensolarados como este é que penso sobre o que quero fazer. Será que eu gostaria de estar discutindo Ricardo Domeneck e Nietzsche ou estar em uma aula de cálculo no ICE?

25/04/07

eu sou as minhas circuntâncias

anelise f.
A humanidade convencionou que amor vem do coração. Mas será? O coração é um músculo, nos ajuda em nada! Quem ama com o coração? O amor parte da nossa inquieta cabecinha (eufemismo puro, né?).

Todas as sensações e as liberações hormonais (coisas intrinsecamente ligadas, eu sei) são desopiladas pelo cérebro, e não por nossos corações, como muitos teimam em acreditar. Acreditar não, é mais um truque de mágica: queremos ser enganados, estamos ali para isso.

Tudo isso sendo obra de nossas mentes seria bem mais fácil esquecer (ou pelo menos amenizar) um amor frustrado, não é mesmo? Sim, talvez. Mas fazemos disso uma cruz que queremos carregar.

Já me declarei contra a burocratização do amor, aqui mesmo (e ainda sou), mas como isso não é uma democracia e o blog é meu me permito ser um pouco paradoxal. (“Ser um pouco paradoxal” é como ser meio bipolar. Rs.)

O amor me parece algo circunstancial, e talvez o seja. Mas o que estou fazendo não é “burocratizar um dos sentimentos mais belos”? Talvez! Eu queria muito que vissem em que estado estou a escrever... O rascunho mal feito, a letra em garranchos, o ar de escritor decadente! Podia ter dado mais ao texto, mas creio que ele não tenha conclusão. Não por enquanto. Pense, que penso eu cá. É só o que temos a fazer. Quem sabe no próximo post eu tenha a resposta para uma coisa que eu nem sei qual é a pergunta. Quem sabe da próxima vez, no próximo amor, na próxima reciprocidade, na próxima circunstância...

23/04/07

25 de Abril

Um ano da morte de meu pai, cinquenta e oito anos de vida de minha mãe!

Mas isso não é importante pra vocês, é importante pra mim!
Leiam o post que segue...

sete por quatro

anelise f.
à morte de meu pai

Mordia-me a obsessão má de que havia,
Sob os meus pés, na terra onde eu pisava,
Um fígado doente que sangrava
E uma garganta de órfã que gemia!
Os Doentes – Augusto dos Anjos

Sete por quatro sete por quatro sete por quatro “está morrendo” ah, vale mais lembrar-me de meu pai que todas as drogas da farmácia estou em um hospital em que sente-se o cheiro sepulcral e é meu pai por sobre a cama e é meu irmão que chama na esperança do contato derradeiro e continua a chamar seu filho primeiro mas este não vem e não há barco, lamúria nem trem que o façam deixar aquela cidade nem mesmo o pai morrendo em sua avançada idade mas meu pai tem a mim mesmo não sendo muita coisa ele me ensinou mais que o giz na lousa foi carrasco me bateu me xingou e além de tudo me amou pois mais além era meu pai e grita e geme e diz “ai” e minha mãe chora e espera sua morte antes da última hora mas meu pai é forte não se abate mas já não come nem bebe e está mais magro que toda a plebe e sua orbe é um hospital que em breve terá ar cemiterial e a vida é ordinária no outro lado da casa santa a gestante uma criança no mundo planta enquanto a vida de meu pai é tirada e minha mãe cada vez mais irada e não dorme e não come e não ri e não diz nada apenas chora são quarenta e oito batimentos por minuto e paradas respiratórias de quinze em quinze segundos e às dezoito e quarenta do dia vinte cinco de abril o coração de meu pai pára e não sei se festejo ou se choro pois hoje é o dia da morte de meu gerador e aniversário de minha mãe que celebra a dor do marido que é morto.

19/04/07

be happy, don't worry!

A felicidade é uma sensação, um momento, e como tal tende a ser temporária. Passa, entretanto volta. A dor e a infelicidade são coisas contrarias a felicidade, são o seu oposto. Os opostos se atraem, e precisam se equilibrar. A perfeição está no equilíbrio das coisas, por isso a dor é também momentânea, e também há de passar. Então: take it easy!

13/04/07

um silogismo a jorgenrique

(de uma conversa com jorge henrique)

anelise f.

disseste-me que o poema é a filosofia enfeitada,
que todos são poetas mesmo que inconscientemente
portanto o poeta é o filósofo enfeitador
e todos somos poetas e filósofos
(mesmo que inconscientemente)
partindo deste pressuposto
não vejo porque se enraivecer
toda vez que lhe chamam: filósofo.
afinal, todos o somos
(mesmo que inconscientemente)

09/04/07

não sou nada

anelise f.
“Não sou nada”, é assim que Fernando Pessoa, usando um de seus heterônimos, dá inicio ao poema Tabacaria. Comecei a pensar não somente no poema, mas em tudo que esse inicio nos remete. O que eu vou confabular comigo mesma, aqui hoje, é mais (ou menos, sei lá) que um debate filosófico, é pura gramática.

Vou usar um exemplo, porque os exemplos deixam tudo muito mais fácil. Se eu digo “não sou boa” quer dizer que eu sou má, se eu digo “sou boa” quer dizer que eu não sou má. A palavra não é que muda o contexto da afirmativa. Só que no poema de Pessoa o problema (ou a solução, como queiram) está na palavra nada.

Quando Pessoa diz não sou nada, o que ele quer dizer? Ele quer dizer que é tudo, ora. Quem não é nada, é tudo. Se fosse qualquer poeta, mas qualquer poeta mesmo, desde Augusto dos Anjos a Ricardo Domeneck, eu desconfiaria. Diria que esse é só mais um daqueles erros poéticos, que contribuem para o enriquecimento da obra, mas se tratando de Pessoa, de Fernando Pessoa, não. Acredito no propósito!

E como diria aquele poema, falsamente atribuído a Luiz Fernando Veríssimo, embora quem quase morreu ainda vive, quem quase vive já morreu.

05/04/07

bípede ou não bípede eis a questão!

anelise f.
Abri minha sombrinha enquanto caminhava. A Bahia inova com o Carnaval fora de época, as instituições públicas de ensino superior com as férias fora de época e agora temos o verão fora de época. Já é outono, e, no entanto esse tempinho maluco (que nós enlouquecemos, diga-se de passagem) resolveu esquentar pra valer agora. Há alguns meses a chuva transformava Lima Duarte na Macondo de Garcia Márquez, agora faz um calor bem típico do Márquez também (mas nada como a moderação, não é mesmo?). Mas não é sobre isso que eu quero falar, eu queria chegar na hora que abri a sombrinha e dei uma olhada geral, de cima à baixo, e percebi que sou... bípede.

Poucas pessoas têm esse tipo de confabulação com sigo mesmas, até entendo a excentricidade. Afinal, sou bípede desde que nasci e só agora me dei conta disso? Por incrível que pareça, sim. E no mais tem coisas que a gente leva muito tempo pra perceber, principalmente quando convivemos com ela all the time.

Eu nem sei porque escrevi esse texto! Pra falar a verdade eu não sei muita coisa...

a burocratização do amor

anelise f.
Nascemos, crescemos, nos multiplicamos e morremos... Mas dentro deste grandessíssimo ciclo esquecemos de incutir o fator mais importante para que ele próprio exista: a vida. (Deixando a discussão sartreana de lado). Passamos por ela como quem passa por uma grande avenida e não tem tempo suficiente para observar todos à volta. A vida é um bem, um dom - é bom enfatizar que isso nada tem a ver com Deus - é a atividade substancial, por meio da qual atua o ser. Meu amigo, querendo ou não você vai passar por ela (o que é um tanto quanto óbvio, já que você está lendo este texto), mas independente disso, o ponto em que quero chegar é o seguinte: a fatal burocratização do amor.

Desde que o mundo é mundo criamos regrinhas para melhor convivermos em grupo, o que chamamos valores (que até são úteis, já que sem eles tudo tende a barbárie), mas o fato é que essas regras acabam criando um excesso de formalidades. Vivemos (ou melhor, passamos) lobotomizados. Tendemos a acreditar que é vida, mas simplesmente estamos sobrevivendo. Objetivamos coisas tão pequenas, mesquinhas, como: a busca incessante por dinheiro, a melhor qualificação profissional, contatos importantes... Não que tudo isso não tenha seu apreço, são coisas importantes (ainda mais nesse mundo capitalista em que vivemos), mas não são essências, são coisas que sem as quais podemos viver!

Particularmente prefiro as coisas que transcendem (e até acredito que possivelmente seja esse o sentido da vida). Então gosto de uma boa leitura, momentos com meus amigos, lápis e papel se consubstanciando. Enquanto o tempo passa, ficamos sentados, vivendo encharcados de um pseudomoralismo. Fazemos tudo pela metade, sem objetividade, ponderando a qualidade e querendo quantidade.


Tendemos, certas vezes, a dizer que algo é subjetivo para fugir de determinados assuntos. Tudo na tentativa de fugir da fatídica discussão. Mas sim, a subjetividade existe, e o fator "Deus" está aí para nos comprovar. Os dicionários podem nos impor que amor é o sentimento que impele as pessoas para o que se lhes afigura belo, mas o certo é que AMOR não é algo burocratizável, não é algo dizível! Amor é reciprocidade, mas reciprocidade não é equivalência. Amor é lealdade, mas lealdade não é fidelidade. (Minha visão!) As convicções são cárceres! O que eu digo ser amor pra mim é completamente diferente do que você julga ser amor, e é isso que acontece quando estamos junto a uma determinada pessoa que dizemos amar. Amamos diferente um do outro, amor não é axiomático, não tem definição prévia. Vejo o amor com os olhos da subjetividade (e talvez pelo fato de ser míope não consiga defini-lo), ou talvez não o consiga porque o amor não pode ser definido (creio que esta passagem é repetitiva). Então se amor é subjetivo não pode ser definido, e o que não é definido não poderá, em tempo algum ser burocratizado. Pois bem, chegamos assim a um silogismo.

Estou farta de escutar as pessoas dizendo: eu não acredito no amor. Eu também, por tempos, não acreditei, e tudo isso se deve ao fato de que alguém, um dia, tentou burocratizar um dos sentimentos mais belos! Tende-se a familiarizar tudo o que é falho com tudo que é burocratizado, então quando temos alguma decepção amorosa simplesmente paramos de acreditar no amor. Paramos como quem pára um carro. Amor é belo e transcende a qualquer possibilidade de explicação!

13/01/07

com o rei na barriga

anelise f.
Acordei às dez da manhã, tomei banho, almocei, fui pra mais um dia de vestibular (o qual provavelmente eu nem passe), mas tudo levava a crer, que na medida do possível, esse seria mais um dia comum. Mas decididade a madrugada do dia 6 para o dia 7 de Janeiro do ano de 2007 não seria mais um dia comum: às oito horas e quarenta minutos da noite fui surpreendida por uma mensagem em meu celular, que dizia assim: o davi ta nascendo, to internada com 5cm.

Naquele momento veio na minha lembrança meados do mês de Maio, no banheiro do Bloco C do CTU, quando vi duas linhas avermelhadas, assinalando a possível gravidez; e um abraço apertado e pingando lágrimas, que ainda não simbolizavam alegria (era mais surpresa que tudo). Uma semana depois um segundo exame viria confirmar: grávida, minha amiga estava grávida.

Imprecionante como o encontro de um óvulo (tão pequeno) com um espermatozóide (menor ainda) podesse mudar todas as vidas circunvizinhas a esse encontro. São encontros, ou a falta deles.

Possivelmente o mais próximo da maternidade que eu chegue seja justamente agora, e por isso acho que estou chorando à 1:30 da manhã do dia 7 de Janeiro de 2007, sem saber se meu baixinho já nasceu... Esse sentimento é mais inexplicavel que Kant.

INTROSPECTIVA 2006

anelise f.
AMOR:

Apaixonei-me este ano, mas durou pouco como toda paixão que não é levada a sério. Não virou amor. Não fui levada tão a sério assim. Amor é reciprocidade/lealdade, isso nem de longe aconteceu. Houve um amor fraternal muito forte, ainda há. Mais nada, além disso. Descobrir que não estava mais apaixonada foi melhor do que descobrir que estava apaixonada, infelizmente. Era uma relação que estava me machucando assaz. Eu queria me libertar daquilo, mas parecia que estar presa àquela situação era um tanto quanto mais prazeroso, ao ponto que eu tinha com o que me ocupar (sentimentalmente, coisa de louco mesmo). Como disse anteriormente aquilo tudo me machucava, e se machucava não podia ser algo saudável; não podia ser algo frutífero. (O ser humano e sua mania neurótico-capitalista de que tudo tem que dar frutos.)
Ele me diz que o ano de 2006 da vida dele foi meu. Mas infelizmente não posso crer que seja verossímil, afinal, se a recíproca não foi verdadeira esse ano não pode ter sido meu.

Felizmente o amor tem favos quentes, e pude prova-los este ano. Foi-me reservadas maravilhas, e eu descobri pessoas divinas. Pessoas essas que souberam chegar de mansinho e dizer “aqui é meu lugar”, e conquistaram mesmo um lugar cativo no meu coração. O meu mal é esperar reciprocidade. Mas não posso mudar, está intrínseco, eu acredito na força da reciprocidade; da lealdade. Para mim são traços fundamentais em um relacionamento. (Lealdade não quer dizer fidelidade). Uma em especial despertou meu lado mais poético.

Em minhas buscas oníricas por reciprocidade descobri que ela pode estar num momento. Como diz meu verso “amei-te com a reciprocidade dum momento”. O “foi bom enquanto durou”, ou “o seja eterno enquanto dure” é muito ruim, mas é algo que há de se aprender a conviver. O problema se dá quando um dos lados quer continuar a ser recíproco, mais uma vez a ferida.

Fui amada, (talvez ainda seja, sei lá), mas como uma voz sábia me disse certa vez: eu prefiro amar que ser amada. Afinal, quando amamos e não somos amados ainda podemos controlar nossos sentimentos, ou ao menos tentar. Mas quando somos amados e não amamos (meu caso neste caso, risos) aí sim fica difícil, pois não posso controlar os sentimentos de ninguém.

FAMÍLIA:

A família esteve bem mais desunida este ano, coisa absurda, pois afinal de contas os fatos tinham que nos levar a união, não a falta dela. Mas aprendi que se tratando de pessoas, distintas, não podemos exigir nenhuma obrigatoriedade.

Meu pai morreu, e eu aprendi muito com isso (por mais clichê que possa parecer). Até parece uma piada de humor negro, chega a ser até sadismo dizer que se aprende com a morte do pai, mas é a mais pura verdade. Eu aprendi como a força é bem mais importante que a saúde, como a superação é prima-irmã da força. Força é tudo meus caros, há de se ter força eternamente ou sucumbirás. Minha mãe me pergunta se eu já esqueci meu pai. Nunca. Tem como esquecer um pai? Não. (Sim, entendo que há controvérsias, mas no meu caso não, por mais brigas, intrigas, tapas que trocamos, eu o amo, isso é fato). Eu o amo sim, no presente. Não amo o corpo. Chorei pouco em seu velório porque o culto ao corpo é uma besteira, o que fica são as idéias. Idéias meus caros, idéias. Só me desesperei porque lembrei de tudo que vivemos, tudo que ficaria; sofri porque não teria mais suas idéias. Mantive a calma porque não podia esperar o mesmo de minha mãe, que via o marido morto no dia se seu aniversário, nem de meu irmão que segurou a barra por todo o tratamento. Posso garantir que a morte é algo que não me amedronta mais. Amedrontaria-me se eu não tivesse com quem compartilhar minhas idéias, meus versos, ensaios, textos, felicidade, amor e etc.

Não dou mais carinho pra quem acha que tem os maiores problemas do mundo, todo mundo tem problemas. É narcisismo às avessas (ou no mínimo ingenuidade) achar que os nossos são maiores que de alguém. Tenho problemas sentimentais, intelectuais (que palavra horrível), psicológicos, filosóficos, poéticos... Mas tem gente que nem tempo para ter esses problemas tem, pois passam fome, sede, frio...

AMIGOS:

Foi um ano bom para aprender a escutar ao invés de falar pelos cotovelos. Descobrir que tenho amigos de verdade mesmo. Recordo-me que no dia em que meu pai morreu, fui avisada na escola, e todas aquelas almas me acariciando, me dando força (viu?).

Devo abrir novo parágrafo para falar de uma alma boa (e que felizmente ou não ainda não descobri nenhum defeito): Léo. Se não fossem as mãos dele junto as minhas naquela noite de terça feira, eu não teria dormido. Leandro junto de mim, meu pai morto, e ele lá, me ajudando. Não há palavras para descreve-lo, eu já disse a ele que “Léo” devia ser adjetivo. Exemplo: Fulano é um Léo de pessoa, não é mesmo?. É claro que teve muita gente me dando força, e não estou os desmerecendo, só que a cena com Léo me marcou, não só pelo momento, mas por tudo que ele já fez por mim.

Descobri o lirismo da amizade; aprendi a recitar poemas com as mãos; vi o quanto pode ser prazeroso andar por Juiz de Fora, de mãos dadas, vendo Fotogênesis de minha xará no Espaço Cultural Bernardo Mascarenhas, ou beber uma boa taça de vinho tinto suave no Fórum da Cultura, até mesmo comer hambúrguer recitando Florbela Espanca. Ana Clara foi um anjo em minha vida. De quebra, e não menos importante veio a bela Isa, Isabela. Um anjo também, negro. A minha poeta soturna. Formamos o quarteto fantástico, ouso dizer que misturando Ana, Isa, Ariene e eu, formar-se-ia uma mulher perfeita. Felizmente somos quatro. E faltou falar da minha ruivinha, a minha neguinha. A mãe mais linda do universo. A amiga onipresente. Maravilhas que o CTU faz, vamos estudar e ainda encontramos um amor pra vida inteira, não é ótimo? Como deve ser difícil encarar uma gravidez com tão pouca idade. (Ah, falando nisso, o plural de “gravidez” é gravidezes, espetacular não é mesmo? Palavras terminadas em “ez” tem plural em “es”. Fantástico.) E eu estou aqui, ansiosa pra ver a cara do meu filho (sim, eu vou ser pai), com vontade de abraça-la. Felizmente o dia está próximo.

Amigos, dádivas.

ESCOLA:

Problemas. Resumindo. Todos os problemas me levaram a ter problemas na escola. Mas passei. Livre do ensino médio. Mas não do PISM.

Medo. Resumindo. Eu quero muito passar nessa tal de UFJF. Dizem que lá é um mundo a parte, onde há gente que canta, gente que dança, gente que freqüenta a Cantina do ICH e eventualmente assiste uma aula.

Menções honrosas para Walter Rossignolli, o Waltinho. Grande professor de português, amigo, até mesmo pai. Desejo-lhe força. (Ta, eu sei que ta um saco essa coisa de “força” e esses meus parênteses infinitos). Deviam fabricar mais Waltinhos, a gente comprava e criava um Walter em casa. Numa coleirinha de versos livres.

EU:

Finalmente chegamos na parte final (ufa!) e para meu deleite na melhor parte da história, EU. Afinal, viver sem mim é monótono. Eu me descobri, ou melhor, estou me descobrindo a cada dia até o ultimo dia de minha vida. Isso é ótimo.

Encarei-me como poeta. Descobri que versos podem ser feitos sem muita técnica, muita rima, muito lesco-lesco. Estive mais sensível, fazendo poesia com o corpo. Passei o ano descobrindo poesia nas ruas, na TV (sim, existe poesia na TV, mesmo que seja no invento), nas pessoas, nas formigas, na natureza, no chuchu com batatinha... Fiz odes imensuráveis, dei o lirismo que tinha e o que não tinha para dedicar poemas à pessoas especiais.

Percebi o quanto sou linda, e de uma inteligência poética fantástica. Sem narcisismos. Eu me amo e sou correspondida. Isso é importantíssimo. Há pessoa que não me merecem. Há pessoas que não merecem ler poesia. Há pessoa que não merecem ter poesias dedicas a elas. Descobri tardiamente. Fazer o que?

Eu quero um 2007 com muita força. Eu quero um 2007 na Federal. Fazendo o curso que eu quero. Estudando, lendo... Comprometendo-me cada vez mais com as causas sociais, da qual sou adepta há alguns anos. Acho que 19, mais ou menos. Visitando meus velhinhos no São Vicente de Paula. Aqueles velhinhos com olhos esperançosos, a espera da família que dificilmente vem. Os meus velhinhos de mãos lisas. Velhinhos quase que só abraços. Velhinhos que tem criado suas famílias com dificuldade (e foram deixados ali por elas, sem muitas dificuldades), e hoje tem medo de chuva.

Anelise gosta de dias chuvosos, lendo um bom livro.
Anelise odeia dias de sol, transpirando.

Como? O homem é apenas um erro de deus? Ou deus apenas um erro do homem?
(Nietzsche)

11/12/06

desde o carnaval de 1987

ane(lise) f.

Era mais um dia de samba
Talvez por isso
Um pandeiro
Clame meu nome
Atice meus pés

Naquele carnaval
Entre confetes e serpentinas
Figurava um casal:
Meu pai e minha mãe.

Naquele carnaval
Os fluídos de meu pai
Percorreram o interior de minha mãe
Numa busca onírica por vida
(ou por toma-la)

Enquanto consumavam o amor
Será que imaginavam a menina
Morena, tinhosa, corpulenta
Que minha mãe, nove meses depois
Haveria de dar a luz (ou toma-la)
(Naquele dezembro de 1987)?

04/11/06

feira de versos

ane(lise) f.

e a criança pobre
que pergunta a mãe se no céu há pão

e a criança pobre de espírito
que pergunta a mãe se no céu há deus

e a criança pobre de amor
que pergunta a mãe se no céu há lira

(o quilo de verso
em promoção
leva-se de brinde
um punhado de sensação)

mas não adianta
a criança
não consegue
(ainda)
comer papel, nem
palavra

28/10/06

minha musa

ane(lise) f.

Amo cada forma
Disforme
De meu corpo
Cada fio
De cabelo
Cacheado
Cada verso
De um corpo
Bem bolado

Meu corpo
Que pula
Copula
Com gula
Regula

Meu sorriso
Perfeito
Bem feito
Rarefeito
(Sou minha musa)

Gosto dos seios
Banhados com leite de rosas
E das mãos estertorosas
Que podem os tocar
(São minhas)

Tenho um coração
Que bate
Em compasso 4/4
Na clave de sol

Gosto de minha bisavó índia
Do bisavô alemão
Da mãe brasileira
E do pai lunático

Amo
Meus versos
Herméticos
Antiéticos

(Sou minha melhor poeta
Sou minha melhor musa
Sou minha melhor criação)

27/10/06

sem título

Esse Werther
Que me verte
Em ver-te

Nessa imbecilidade
Das palavras
Nessa futilidade
Do que escrevo

Quero-te bem
Mas não te quero

Meus lábios
Que te alojaram
Agora sorriem-te
Um sorriso amigo
(Já não se magnetizam
Nos teus
)

Minha mente
Pergunta-se
Por que lhe quis
E tem a nítida
Idéia
De que foi
Atriz!

21/10/06

concreto

A Tiago Rattes de Andrade
ane(lise) f.

Nas noites frias de Juiz de Fora
Sento-me, e a neblina gela
E penso naquele menino que vela
Por um poetar que embora
Seja feito com tamanha maestria
Ainda é íntegro, ileso, inteiro, completo, perfeito, impoluto...
E tenho um sorriso escuro, como o preto do luto
E uma vontade imensa de me sepultar em qualquer estria

Ele anda ébrio pela rua Santo Antônio
A procura do amor
Ele ama simplesmente, em tal fervor
E libera em doses alopáticas seus hormônios
Pode amar a uma nesse dia
Outra amanhã
Mas amará em febre terçã
A cada uma delas, e a cada uma varia...

Ele anda ébrio pela rua...
Encontra a mulher idolatrada
E tem nela a evolução amada
Toma-a nua...
Ele passeia pelo Campus Universitário
E grita, e luta, “Viva a democracia”
E sua mente nunca se sacia
De um poetar extraordinário

Quando escreve é petardo
E nos olhos uma emoção de juventude subversiva
Nessa manumissão incoerciva
Tem o passado que ele não viveu, marcado!
E é todo concreto
Como a nostalgia de Nelson Rodrigues
Em música ou filme, pedindo que não fustigues
E não pare de sambar a noite inteira, do chão ao teto!

Leve como a pluma
E frio e duro como o gume de uma navalha
Essa é a dualidade do homem na batalha
Caminhando nessas ruas de bruma
Não é tanto frívolo mas incompleto...
Não é tanto dádiva mas sim abandono
Assim vai todo ele em Outono
Assim vai todo ele em afeto

O amor e a raiva
As duas grandes molas que fazem a humanidade viver
E nessa sina sempre a se exceder
Perde-se assim na saraiva!
Quer esse amor seja emotivo,
(Pela visão de umas árvores no meio do nevoeiro
Ou por uma bela música ou o livro primeiro)
Quer esse ódio seja inativo

(E a raiva seja ódio, desprezo, desdém)
Tem nas mãos o samba
No poetar o gingar do bamba
Oh, como tem um poetar que vai além
E se nos parece que na alma mina um estertor,
(Se conhecer pouco, já é adstrito
Se conhecer muito, já é infinito)
Só o que há de concreto é que é todo amor...

17/10/06

dois

À Cecília Delgado e Tiago Rattes de Andrade
ane(lise) f.


Dois,
Um casal
Cabal
Pois
A arte
Faz sua parte
Na hora
De amar
O concreto,
A concreta,
O concreto,
Há concreta!
O seixo
Comedido
Foi perdido
Em seu queixo
(Ou seria
Na Bochecha?)
Que seja!
Ela ri,
E fecha os olhos
Pra sentir sair dos poros
O amor que devotou
Um,
Casal cabal, pois
Os dois
Formam o laço comum!